sexta-feira, 12 de março de 2010
Pessoas que fizeram Xiquexique: Edvando da Assunção Fontoura
Foto Interessante: O descanso do remeiro

O REMEIRO após o almoço tira um cochilo encostado nas costas da carranca. Mesmo nos seus momentos de folga ele não se afasta da sua barca que representa o seu mundo e a sua vida
O termo remeiro possui origem latina, deriva da palavra remus (remi), que em português significa remador, remeiro (Saraiva, 2000, p. 1.020).
Remando vão remadores barca de grande alegria;
o patrão que a guiava filho de Deus se dizia;
anjos eram os remeiros, que remavam à porfia.
Estandarte de esperança, Oh quão bem que parecia!
O mastro da fortaleza como cristal reluzia;
a vela, com fé cosida, todo o mundo esclarecia;
a ribeira mui serena, que nenhum vento bulia. (Vicente, 1982, p. 63)
Foto Histórica: Prédio da Prefeitura, sem o jardim

Intendentes e Prefeitos de Xiquexique - Cel. Manoel Teixeira de Carvalho
Intendente Manoel Teixeira de Carvalho– 1924-1928 –
Mandato: 06 de outubro de 1924-10 de abril de 1928.
Presidentes da República: Artur da Silva Bernardes (15.11.1922-15.11.1926) e
Washington Luís Pereira de Sousa (15.11.1926-24.10.1930).
Governadores da Bahia: Francisco Marques de Góes Calmon (28.03.1924-28.03.1928) e
Vital Henrique Batista Soares (28.03.1928-21.07.1930).
Mesmo fora do governo municipal, o político xiquexiquense Cel. Manoel Teixeira de Carvalho continuava atuando e participando da política local. Por estar em constantes viagens para a capital da Bahia tinha uma visão mais profunda da luta pela sucessão ao governo do Estado. Assim, conseguiu convencer os correligionários de Xiquexique a apoiarem Góes Calmon, candidato de oposição ao Governo da Bahia, contra Arlindo Leone, candidato do Governador J.J. Seabra. Após a estrondosa vitória de Góes Calmon o Cel. Manoel Teixeira de Carvalho ainda conseguiu compor um grupo de políticos de Xiquexique para irem assistir a posse do novo Governador.
Em recompensa ao apoio que lhe foi prestado o Governador Góes Calmon convidou o Cel. Manoel Teixeira de Carvalho para integrar o Conselho Municipal de Xiquexique, na condição de Presidente da mesa, cargo que o alçaria imediata e automaticamente, à condição de 17º Intendente Municipal de Xiquexique, em substituição ao seu amigo o farmacêutico José Adolpho de Campos Magalhães.
Antes de aceitar o convite o Cel. Manoel Teixeira de Carvalho fez duas viagens a Salvador quando teve oportunidade de apresentar ao Governador e seus Secretários as suas responsabilidades e preocupações com o governo municipal que lhe estava sendo colocado nas mãos. Apresentou o seu projeto, pois tinha conhecimento das grandes necessidades do Município bem como da escassez dos recursos a nível Municipal e Estadual e, tendo recebido do Governador promessa de envio de verbas aceitou o cargo de Intendente Municipal na esperança de fazer um governo de grandes realizações.
O Cel. Manoel Teixeira de Carvalho, tomou posse no dia 06 de outubro de 1924 para um mandato que se estenderia até abril de 1928 e nesse período realizou uma série de obras e serviços jamais vistos em Xiquexique. Os seis conselheiros que participaram da sua gestão foram: Cel. Francisco Dionísio dos Santos, Cel. Hermenegildo de Souza Nogueira, Cel. Joaquim Honorato de Souza, Cel. Lithercílio Baptista da Rocha, Cel. Manoel Antunes Bastos, e Cel. Zoroastro Ferreira Lustosa.
Sentindo a necessidade de aumentar a arrecadação municipal para poder realizar o seu projeto de governo, o Intendente assinou várias portarias estabelecendo e regulamentando impostos, taxas e tributos que seriam cobrados das pessoas naturais e das pessoas jurídicas e, para tornar eficazes as suas Portarias, conhecedor que era da evasão de tributos, nomeou para o cargo de Coletor de Impostos os Srs. Francisco Pereira de Carvalho e Pedro Ferreira de Brito.
Preocupado com o sistema educacional de Xiquexique, resolveu visitar as escolas particulares que funcionavam na cidade, sob as direções do professor Virgílio Bessa e da professora Rosa Baraúna para informar aos professores que a Intendência Municipal não só manteria mas reforçaria a ajuda financeira para manter nas salas de aulas os estudantes pobres que não tinham condições de pagar as mensalidades escolares nessas escolas particulares. Era já uma visão evoluída do Intendente. Nesse sentido convidou todos os professores existentes na cidade para uma conversa sobre o assunto no seu gabinete de trabalho. Dando continuidade a esse trabalho iniciado na sede, o Intendente, viajando em lombo de burro visitou todos os professores dos distritos e dos povoados, sempre na companhia de assessores. Além do pagamento das mensalidades a Intendência Municipal providenciou pequenos cadernos, lápis e borracha para os alunos carentes.
Tomadas as providências na área da educação, o Intendente se voltou para a Saúde da população e nesse sentido viajou até a vizinha Barra onde verificou a possibilidade de ampliar o contrato de trabalho com o médico naquela cidade, tentando transformar as visitas mensais em quinzenais. Sempre visando a melhoria da saúde do povo, convidou todas as parteiras a participarem de reuniões com o médico visitante e com o seu amigo farmacêutico e ex-Intendente José Adolpho de Campos Magalhães para treiná-las nos primeiros atendimentos e medicações principalmente nas enfermidades mais comuns como varíola, catapora, sarampo, tuberculose, malária,etc.
Felizmente, na área da saúde, o ano de 1925 era promissor ante a colação de grau em medicina do Xiquexiquense Clodoaldo de Magalhães Avelino (Dr. Dozinho), primeiro médico xiquexiquense, que ante o convite do Intendente Manoel Teixeira de Carvalho, não se fez de rogado e de imediato abriu um consultório em Xiquexique. A cidade se alegrou pois passava a contar diariamente com um médico, tendo o Dr. Dozinho se lançado ao trabalho na sede e no interior do município, com todo o apoio da Intendência.
O Intendente não se preocupava somente com os vivos. Os mortos, também foram atendidos no seu governo. Assim voltou-se para a necessidade que Xiquexique estava tendo de um cemitério novo. O único cemitério da cidade, além de pequeno já estava totalmente lotado e não mais permitia sepultamentos. Após semanas de pesquisas tentando identificar uma área que servisse para a construção do novo cemitério, o Intendente foi surpreendido com a doação do terreno feita pelo cidadão Cel. Joaquim de Souza Nogueira, situado nas proximidades do cemitério que seria substituído.
A construção do cemitério novo começou em março de 1926 e com doações do povo e recursos da intendência a obra foi concluída e inaugurada no dia 28 de maio de 1926, o que demonstra o interesse do Intendente em dotar a cidade de um novo cemitério.
Deve ser registrado que durante a frutífera gestão do Cel. Manoel Teixeira de Carvalho, ocorreram os seguintes eventos:
I) Aconteceu no ano de 1926, a maior enchente do Rio São São Francisco da década de 1920;
II) Em janeiro de 1926 chega a Xiquexique, de vapor, o primeiro caminhão e o primeiro automóvel da cidade, comprados em São Paulo pelo Sr. Marinho Pereira de Carvalho;
III) Em março de 1926, 0 Cel. Manoel Teixeira de Carvalho, Intendente Municipal de Chique-Chique, concedeu um alvará de licença ao Sr. Marinho Pereira de Carvalho para construir uma estrada de rodagem ligando Xiquexique a Canabrava do Gonçalo. Foi a primeira rodovia de Xiquexique.
IV) No ano de 1926 a Coluna Prestes passou no interior do município de Xiquexique, precisamente nas localidades de Canabrava do Gonçalo, Riacho de Areia, Fazenda Forquilha, Maxixe e povoado de Roça de Dentro.
V) Em fevereiro de 1927, o padre Vicente Francisco dos Santos, se despede da Paróquia, como vigário da Igreja Matriz do Senhor do Bonfim e é substituído pelo padre Antonio Costa Rego, carinhosamente chamado de monsenhor Costa pela população. Exerceu a função de vigário até o ano de 1936. Monsenhor Costa é nome de rua em Xiquexique.
VI) O Intendente sancionou, no dia 17 de março de 1928, a Lei Municipal nº 19, estabelecendo auxílio financeiro para as obras de recuperação do templo da Igreja Matriz do Senhor do Bonfim.
Xiquexiquenses ilustres que nasceram durante a gestão municipal do Cel. Manoel Teixeira de Carvalho:
08.10.1924: Nasceu 0 Sr. Djalma Alves Bessa, na cidade de Chique-Chique, estado da Bahia, filho do Sr. Luiz Alves Bessa e de D.Adalgisa de Souza Bessa. Bacharelou-se em Direito na cidade de Recife, e aprovado em concurso público passa a exercer a função de Promotor da Justiça Pública da Bahia. Exerceu a função de deputado estadual por quatro mandatos consecutivos (1954-1970) e, também, quatro legislaturas para deputado federal (1970-1986).
1924: O Dr. Clodoaldo de Magalhães Avelino, Dr. Dozinho, se tornou o primeiro xiquexiquense a colar grau em medicina pela Universidade Federal da Bahia. O médico Dr. Clodoaldo de Magalhães Avelino era filho do Cel. Agrário de Magalhães Avelino e de D. Fulgência Nogueira Bastos Avelino.
28 .01.1925: Nasceu D. Alita Ribeiro de Araújo Soares (Profa, Litinha), em Barra (BA), filha do Sr. Aristides Olympio de Araújo e de D. Alita Cândida Ribeiro de Araújo. Fez o curso ginasial e o Curso de Professora no Educandário Santa Eufrásia. Aprovada em concurso público, ingressou na rede estadual e Educação da Bahia.
25.12.1925: Nasceu Manoel Alves Bessa, na localidade de Ilhota, município de Xique Xique, estado da Bahia, filho de Marcolino Alves Bessa e de Laudelina Maria de Souza. Foi agricultor, fazendeiro e político. Foi vereador da Câmara Municipal de Chique-Chique nas seguintes legislaturas: 1963-1967, 1971-1973 e 1977-1983.
29.08.1926: Nasceu o Sr. Florisval Torres da Silva, por todos conhecido como Florzinho, em Remanso (BA) filho da Sra. Joana Torres da Silva, tendo em 1934, com 8 anos, vindo residir em Xiquexique, com a mãe e a avó Ana Josefa Torres da Silva. Casou-se com a Sra. Francisca Gonzaga da Silva e tiveram 8 filhos.
30.01.1927: Nasceu o Sr. Nilo Castelo Branco Pinheiro, filho do Cel. Gustavo Pinheiro de Alcântara e de D. Pergentina Castelo Branco Pinheiro. Nilo Castelo Branco Pinheiro faleceu subitamente no dia 23 de outubro de 2007 estando sepultado no cemitério central da cidade de Xiquexique.
04.04.1927: Nasceu o Sr. Ivan Guimarães Bessa, filho do Sr. Rodrigo Alves Bessa e de D.Alexandrina Guimarães Bessa. Foi coletor federal em Esplanada, Irecê e Chique-Chique.
Foto antiga: Estudantes em viagem de vapor
Nas viagens pelo Rio São Francisco, de Xiquexique a Juazeiro, na Bahia, era comum o vapor ancorar em vários portos, para pegar lenha, mercadorias ou embarcar passageiros.
Numa dessas viagens e aproveitando uma dessas paradas, alguns estudantes de Xiquexique, que estavam presentes como passageiros, em grupo, desembarcaram para, em foto, registrar esse momento importante da vida daqueles que, na década de 1960, eram obrigados a se separarem da família para estudar em Salvador. Em Xiquexique, ainda não havia o Curso Ginasial.
Para que as gerações mais novas possam identificar os participantes daquele grupo de xiquexiquenses, segue abaixo os nomes dos participantes da foto, da esquerda para a direita: EM PÉ: Mirinho Barreto, Ney Dilson Barreto, Neusiton Rapadura. AGACHADOS:Neudilton Baraúna, Rui Cerqueira, Valtércio Nogueira, Nei Barreto Júnior e Izaldo Neiva.
O NOME DA CIDADE

Sem querer entrar no mérito do problema, transcrevo abaixo, literalmente, a matéria do historiador Cassimiro Neto, para que os leitores tomem conhecimento do assunto e, caso queiram, se pronunciem com relação à posição defendida pelo pesquisador.
Da minha parte, estou torcendo para que seja adotada a grafia de CHIQUE-CHIQUE, entre outras coisas porque Chique-Chique é mais bonito e mais chique.
Descarto, obviamente, desde já, o CHEGUE-CHEGUE.
“Polêmica em quarta dimensão
De algum tempo cá são travadas algumas tolas polêmicas em Chique-Chique.
A primeira: em que data transcorreu a emancipação do município: 06 de julho de 1832 ou 13 de junho de 1928?
Na cabeça dos estultos e insanos a resposta correta é a segunda data.
A segunda: desde o diário de Duarte Coelho Pereira, de 1545, grafou-se o vocábulo Chique-Chique e não existe qualquer lei determinando a mudança para Xique-Xique e muito menos para Xiquexique – como os sábios de plantão querem –, qual é o correto Chique-Chique, Xique-Xique, Xiquexique ou Chegue-Chegue?
Esta segunda polêmica (em duas dimensões – Chique-Chique ou Xique-Xique?) nasceu a partir do dia 16 de janeiro de 1948, quando aparece grafado, pela primeira vez, o vocábulo Xique-Xique.
A primeira vez que o município tem seu nome grafado Xique-Xique acontece no dia 16 de janeiro de 1948 na ata de posse do Prefeito Aurélio Gomes Miranda.
Os documentos mais antigos referentes à história do município se encontram no Arquivo Público da Bahia, na cidade do Salvador. Estes documentos foram pesquisados, anotados e tiveram certidões feitas no mês de fevereiro de 1996.
Nos documentos pertencentes ao riquíssimo acervo do Arquivo Público da Bahia, assim como nos arquivos da Prefeitura Municipal, da Câmara Municipal, da Comarca, da Paróquia do Senhor do Bonfim da cidade de Chique-Chique e de todas as demais fontes consultadas, cujos registros se referem a atos praticados e anotados nos livros de atas das mais diversas finalidades até o ano civil de 1947 o nome do município está grafado Chique-Chique.
De acordo com a Constituição Federal de 1946, entretanto, os topônimos municipais, estaduais e federais somente poderiam mudar de nome ou de grafia mediante um longo processo que seguiria trâmites estritos, passando por plebiscito junto à população interessada, votações do Poder Legislativo responsável, aprovação da Justiça e sanção do Poder Executivo.
No caso específico de Chique-Chique este processo inexistiu, havendo uma mudança ortográfica fruto de idéias pessoais, descumprindo a normal constitucional.
Ficou para a História Municipal a polêmica: Chique-Chique em função das belezas naturais da ipueira, do arquipélago – em torno da comunidade – e da Lagoa de Itaparica ou Xique-Xique – por que haveria abundantemente um determinado tipo de ‘cactus’ (que não dá fruto nem sombra e não oferece qualquer utilidade humana ou animal) – e este sim deu origem ao nome do lugar? Por que este lugar deveria ter o nome deste cactus? Por que ele existe em abundância neste vale úmido? Que fim tomou a abundância de cactus que existia neste lugar? Por que há tanto mandacaru neste vale e raramente se encontra um exemplar de xique-xique?
Por que a Academia de Lisboa e das colônias portuguesas nas terras africanas e asiáticas iria, na década de 1940, propor reformas na Língua Portuguesa e se preocuparia com vocábulos provenientes das línguas nativas brasileiras e sugerir suas alterações? Por que a velha Metrópole iria se preocupar e se interessar em alterar o topônimo do povo autóctone e tirar a palavra Chique-Chique e determinar que se escrevesse Xique-Xique? Afinal, qual o interesse de Portugal em fazer alterações em palavras indígenas que eles e as demais colônias desconhecem completamente?
Dezenas de questionamentos que os sábios chique-chiquenses (ou xique-xiquenses, xiquexiquenses ou chegue-cheguenses?) não respondem convincente e satisfatoriamente. Apenas conversa fiada, sem base histórica ou legal.
Qual grafia será a correta, mais simpática e mais chique? Chique-Chique, Xique-Xique, Xiquexique ou Chegue-Chegue? Xiquexique, a mais recente invenção de alguns entendidos e intelectuais da terra?
Grande parte da população adulta que viu a mudança artificial e inconstitucional ocorrida no dia 16 de janeiro de 1948 garante que a cidade de Chique-Chique era um comunidade mais feliz quando seu nome derivava de suas belezas naturais. Muitas pessoas remanescentes da geração de 1948 afirmam que a ortografia Xique-Xique tirou parte do grande encanto e da beleza do município.
Ficou a polêmica: Chique-Chique ou Xique-Xique?
Para aumentar o caos apareceu recentemente esta outra discussão: Xique-Xique ou Xiquexique?
O pesquisador usa nesta obra Chique-Chique. E Xique-Xique, junto com Xiquexique – e agora Chegue-Chegue?
Os leitores que se interessarem por participar de forma construtiva nesta quádrupla polêmica (Chique-Chique, Xique-Xique, Xiquexique ou Chegue-Chegue?) devem procurar e (devem) ler (atentamente) o tópico descritivo sobre Gentio do Ouro, nas páginas 128 e 129 do Almanaque Vale do São Francisco (2001), obra preparada e publicada pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF.
Peguem uma boa ponga na transcrição abaixo:
Gentio do Ouro
Histórico
Município criado com nome de ‘Gameleira’ e território desmembrado do município de Xique-Xique, pelo Ato Estadual de 09.07.1890, sendo instalado em 09.12.1890 pela Lei Estadual nº 2017, e 02.08.1927. O município recebeu o nome de ‘Assuruá’. Foi o município extinto pelos Decretos Estaduais nº 7455, de 23.06.1931 e nº 7470, de 08.07.1931, que anexaram o seu território ao município de ‘Chegue-Chegue’ e criaram na vila de ‘Assuruá’ uma subprefeitura. Foi em seguida restaurado, com território, com território desmembrado do município de ‘Chegue-Chegue’ e sede em ‘Santo Inácio’, pelo Decreto Estadual nº 8546, de 15.07.1993, sendo reinstalado em 09.08.1993.
Parece piada de mau gosto, mas não é, infelizmente.
Então, a partir do exame acurado, cada pessoa interessada deve também entrar nesta salgada quádrupla polêmica
Haja paciência. Santa paciência.
O autor está fora.”
quarta-feira, 10 de março de 2010
REMEIROS DO RIO SÃO FRANCISCO

Antônio Gonçalves
Contam que o pessoal de Juazeiro é da lordeza. Primam pelo vestir bem, pouco importa o número de outras necessidades. Em Santana só dá cascalho. Impera a carestia em Riacho (atual Casa Nova); Em Sento-Sé há uma família muito nobre e uma tribo de índios pacíficos, ambas denominadas Sento-Sé. Muita desgraça em Pilão Arcado, onde duas famílias, a Franklin e a Leobas, dispõem de corajosos jagunços. Em Xiquexique há uma família muito grande, cujos membros tem ancas avantajadas. Icatu (atual Biraba) fabrica uma cachaça podre, de que não tomam os remeiros. Queixam-se da Barra, terra do barão de Cotegipe, salvo engano. Quando a barca atraca no porto da Barra, o ladrão, à noite, vem de anzol roubar o cobertor do remeiro. A família dos Marianos, muito rica, dona da vila, não permite a construção de casa de telha, só de palha, em Morpará (Ex-Casa de Palha ou Casa Velha), há lindas mulheres em Bom Jardim (hoje Ibotirama), razão pela qual os remeiros cantam "Bom Jardim da rica flor", Em Santa Cruz (hoje Paratinga), um velho cruzeiro constantemente cheio de urubus. Na Lapa, roubam durante a festa e ficam sem nada fazer até a romaria seguinte. Sempre foram bonitas Carinhanha e Malhada. O posto fiscal é em Jacaré (hoje Itacarambi). Os remeiros que sobem o rio com destino a Januária, consideram-se mais homens que os remeiros que descem o rio, de Januária a Santa Maria e a Barreiras, onde dá uma rapadura que é purgante para os remeiros. Quando nasce um em São Romão, a parteira joga-o à parede. Se cair será ladrão; se se agarrar à parede, feiticeiro. Em Remanso, quando dois se desentendem, amarram-se as camisas, o covarde não pode correr, morrem juntos. O cais de pedra à frente da igreja em São Francisco é obra da natureza: "São Francisco é pedraria".
Em toda comunidade há sempre um poeta. Entre os remeiros também há um, que sabe resumir, cantando:
ABC ou cantiga dos remeiros
Juazeiro é da lordeza, Santana do cascalho, Riacho da carestia, Sento-Sé da nobreza. Remanso da valentia. Pilão Arcado, da desgraça. Xiquexique dos bundão. Icatu, cachaça podre. A Barra só dá ladrão.
Januária é carreira grande, Corrente é meia carreira. Bate o prego em Santa Rita. E caga mole em Barreira.
Januária só dá cachaça Maria da Cruz, algodão. São Francisco é pedraria. Feiticeiro em São Romão.
Pirapora é terra da lama. Quando não é poeira é lama.
(Gonçalves, Antônio. "Remeiros do São Francisco". Folclore. 01 de agosto de 1971)
