quinta-feira, 31 de maio de 2012

Crônica: O BODE "ICEBERG"


      O  BODE  "ICEBERG"
                 Hélio Antônio da Silva (do BNB)
(Muitas vezes o nome pesa e nem Freud explica...) 

Demorou muito, mas chegou o dia em que o Zé de Mírinho, um catingueiro tabaréu dos mais sabidos, foi passado pra trás quando comprou o bode "Iceberg" na Exposição de Vitória da Conquista. Tudo por não entender nada de inglês. No registro do animal estava escrito o nome, bem claro: ICEBERG, filho de pai tal e mãe tal,  data de nascimento etc. O Zé estranhou o nome quando o vendedor disse "aicibergue", e saiu pensando: "o que será isso"? 
Mas comprou assim mesmo.
O animal, um anglo-nubiano de fina estampa, capaz de impressionar a cabra mais exigente, simplesmente negou fogo na hora de prestar serviço. O Zé, sem alardear o fato, buscou socorro em três comprimidos de viagra, que fez o bode engolir de uma só vez. Uma hora depois, botou o "Simbergue" (assim apelidou o bode) no meio da cabrada e ficou esperando o efeito ... Nada! O danado nem cheirou as pretendentes e, assim, pra não perder o cio das marrãs! Zé foi obrigado a recorrer ao velho  "Marrudo", bode pé-duro antigo da fazenda, reconhecido cruzador ... 
No dia seguinte, ele anunciou a venda do Simbergue, e não demorou em aparecer um comprador, na figura do doutor Tibúrcio, médico da região. Ele havia comprado uma fazendinha vizinha e, apesar de nada manjar do criame de cabras, queria iniciar-se na atividade, influenciado por colegas de profissão, também caprinocultores. 
O Zé, sempre astucioso, pediu um preço alto, alegando que o bode era assim como o Ronaldo, um fenômeno, e que só estava vendendo porque tinha um compromisso, precisava pagar uma dívida e coisa e tal. ..
- Tá vendo essa borregada toda aí, doutor? Tudo filho dele ...
E o doutor, diante da lábia genuína do Zé e sem prestar muita atenção no significado do nome, acabou por levar o Iceberg. Dias depois, em visita à fazenda! o vaqueiro informou: 
- Doutor, o bode é frouxo. Acho que não gosta da fruta ...
Comprovada a impotência do animal, o doutor, "pê" da vida e entendendo a coincidência do nome do animal com seu desempenho gelado, foi com um veterinário à fazenda do Zé, disposto a desfazer o negócio:
- Seu Zé, vim devolver o bode, que não é chegado na função. O senhor já ouviu falar em exame de DNA? Eu trouxe aqui o doutor Daniel, veterinário, que vai tirar o sangue dos seus bodinhos e do Iceberg! pra ver se ele é realmente o pai. Se for ... 
O Zé! todo desconcertado diante de situação tão delicada, mas astuto como sempre, retrucou:
- Carece não, doutor! Aquele descarado do Simbergue é muito tímido e vai ver que ficou envergonhado na presença das suas cabras bonitas. Mas vou lhe dar seis marrãs de primeira, que o senhor pode escolher, e fico com o bode de volta. Afinal, vizinho é pra essas coisas ... 
Negócio fechado, quem levou a pior foi o nosso personagem principal, o bode Iceberg, retalhado na banca do açougueiro, que é lugar de bode frio, sem tesão.
Virou sarapatel, ensopado e bode na brasa ... O couro virou tapete na sala do Zé, matuto sem leitura, mas sabido o bastante para tentar (e quase conseguir) passar a perna em doutor formado. Quase! 



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