sábado, 5 de junho de 2010

Crônica: "Não Mageia e Nem Proseia"


"NÃO MAGEIA E NEM PROSEIA"

Xique-Xique, em algumas coisas parece ser a terra do paradoxo. Tomemos por exemplo o caso dos meios de comunicação, especialmente a imprensa escrita. Em matéria publicada no Blog XIQUEXIQUE, em 15.08.09, sob a denominação de “Visita anual a Xique-Xique” teci alguns comentários sobre a inexistência de revistas e jornais na cidade. Naquela ocasião assim me expressei: “Mas, uma coisa ainda continua me entristecendo e me incomodando. É a falta de uma BANCA DE REVISTA na cidade. Acredito que seja a única comunidade do mundo com 45.000 habitantes que não dispõe desse instrumento de cultura. Passei o absurdo de ficar 15 dias sem ver um jornal sequer. Procurei um como se procura uma agulha num palheiro. Simplesmente não existe na cidade. Se alguém possui algum exemplar o esconde sob 7 chaves.
É necessário, pois, que os lideres da cidade dêem um jeito de o xiquexiquense ler. O maior analfabeto não é quem não sabe ler e sim aquele que, sabendo, não lê. Quem não lê não tem opinião, vive desatualizado, não sabe escolher e fica sem saber o que está acontecendo no resto do mundo. Vamos meus conterrâneos. Introduzamos o JORNAL e as revistas semanais na cidade para que sejam lidos pela população.”
Pois bem, o paradoxo a que me referi acima diz respeito ao fato de em épocas passadas, primeiro terço do sec.XX, Xique-Xique, na época pequenina cidade da caatinga baiana, chegou contar com alguns importantes periódicos redigidos e impressos pela própria comunidade.
O nosso pesquisador CASSIMIRO MACHADO NETO, em seu livro “Senhor do Bonfim e Bom Jesus de Chique-Chique (História de Chique-Chique), 2ª Edição – 2009", assim se refere aos “jornais” de Xique-Xique: “A administração do Prefeito Municipal de Chique-Chique coronel José de José Nogueira (1930-1933), ... foi a que teve o maior volume de informações registradas, graças ao surgimento de dois jornais semanários, que deram a maior cobertura possível a todos os fatos políticos, sociais, culturais, desportivos, econômicos etc. Estes dois jornais foram: A ORDEM, que circulou de 17 de julho a 20 de dezembro de 1931, totalizando 19 edições semanais consecutivas e A LUZ, que circulou entre o dia 14 de fevereiro a 28 de agosto de 1932, publicando 23 edições semanais consecutivas.”
Continuando a sua pesquisa o nosso historiador divulga, ainda a existência dos seguintes periódicos xiquexiquenses:
I) O Progresso, que circulou de 1936 a 1938 e do qual o nosso historiador e pesquisador teve acesso, apenas, a uma fotocópia da 1ª página da edição nº 01, datado de 09 de agosto de 1936;
II) O tablóide Tribuna da Verdade que circulou apenas uma vez, no dia 31.07.1995, embora o expediente informasse ser tiragem semestral;
III) O Página Revista pequeno periódico mensal que vem circulando desde setembro de 2003.
Segundo o nosso pesquisador CASSIMIRO NETO, Xique-Xique já teve mais de uma dezena de periódicos com tiragens semanal, quinzenal e mensal, a contar do ano de 1931 o que poderia denotar um bom gosto pela literatura e pela notícia. Mas, aí surge o paradoxo: se o povo tinha essa boa vontade para com os noticiários locais, nunca se interessaram em ler os grandes jornais ou pelo menos os jornais que circulam na capital do Estado, demonstrando com essa atitude um total descaso para com o que se passa na resto do mundo, com grande prejuízo para a cultura do povo e o desenvolvimento da cidade.
Sem jornais, sem revistas, sem biblioteca e sem cinema, o povo de Xique-Xique (BA), nas décadas de 1960 e 1970 atravessou anos de total ignorância utilizando como meio de contato com o mundo exclusivamente o rádio e assim mesmo interessando-se apenas por jogos de futebol, dos times do sudeste e pelas radionovelas que se mantinham em alta nas cidades onde ainda a televisão não tinha chegado.
Com a chegada dos anos 1970, influenciada pelos jovens que estudavam em Salvador, começou-se a pensar em trazer o sinal da televisão para Xique-Xique. Nesse tempo Salvador e algumas das principais cidades do Estado já contavam com os sinais de televisão dos Diários Associados e da Rede Globo, transmitindo as telenovelas, os noticiários e principalmente os jogos de futebol. Na rede Globo, nessa década, destacaram-se as novelas Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Cavalo de Aço, Pecado Capital, o Astro e muitas outras que deixavam as mulheres desejosas de acompanhar, diariamente, os folhetins que aquela emissora de televisão sabe fazer tão bem.
A sociedade xiquexiquenses colocou, então, como prioridade cultural trazer a TV para Xique-Xique. Esqueceram-se de que mais importante era incentivar, na cidade a instalação de bancas de revistas, salas de projeção de filmes e bibliotecas. Priorizaram a televisão e, a partir dessa opção começaram uma odisséia para dotar a cidade com um sinal de TV.
Durante toda a década de 1970 várias foram as tentativas frustradas tanto as feitas pelas pessoas físicas como as promovidas pelas empresas, que, também, estavam interessadas em estimular o consumo em todas as cidades à margem da rodovia Xique-Xique a Salvador.
Instalaram-se antenas particulares, as maiores e melhores vindas da capital, montaram, ao longo da rodovia, torres de retransmissão do sinal, mas, durante muitos anos os aparelhos de TV mostraram um desempenho pífio. A regra geral era apresentarem uma tela totalmente tomada por chuvisco com uma imagem que mais parecia uma sombra. Quanto ao som, este mostrava-se intermitente, ora chegando com nitidez e outras vezes com muitas descargas e interferências ou mesmo desaparecendo totalmente.
Mesmo com a precariedade do sinal, as famílias não desanimavam e sempre estavam comprando aparelhos de televisão levadas pela esperança de assistirem as novelas da Globo que já faziam grandes sucessos em Salvador. Por isso, logo após o jornal nacional, com Cid Moreira, que era assistido pelo chefe, todos se assentavam em frente da tela chuviscada e desde que o som estivesse mais ou menos audível e entendível, procuravam imaginar o andamento da trama novelesca atentos às sombras que apareciam por baixo dos chuvisco.
Os homens que preferiam as transmissões das partidas de futebol ficavam plenamente satisfeitos se a imagem estivesse mais ou menos, mais para mais do que para menos, vez que a voz do locutor poderia ser suprida com um radio colocado ao lado da televisão.
Foi nesse clima que num certo dia, no jardim da Praça D. Máximo, estavam alguns torcedores de futebol irritados e contrariados porque não conseguiram assistir, mesmo precariamente, a transmissão de um jogo entre dois grandes times de futebol, vez que junto com o som a imagem desaparecera, quando, ao passar por ali o comerciante Marçalzinho, sempre de bom humor e dono de uma verve humorística, um dos torcedores frustrados lhe pergunta o que ele acha da televisão em Xique-Xique. Marçalzinho, sem pestanejar e como se já estivesse esperando a pergunta, responde jocosamente a queima roupa: “A televisão daqui quando mageia não proseia e quando proseia não mageia”.
Essa concisa definição ficou valendo até o início da década de 1980 quando, com a chegada da energia hidrelétrica em Xique-Xique criaram-se melhorias tecnológicas que permitiram a chegada do sinal em excelentes condições, e, com a introdução da antena parabólica em quase todas as residências aumentou o leque de canais bem sintonizados.
Nesses últimos 25 anos, pois, a população de Xique-Xique vem se “ilustrando” com a nefasta programação das grandes redes de TV sudestinas, representada principalmente pelas novelas e programas de calouros, sem se preocupar, ainda, com a ausência, na cidade, de outros meios de comunicação e de difusão de conhecimentos, tais como os jornais, as revistas e as salas de cinemas.

ATÉ QUANDO???


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